Emigrar não é coisa fácil. Sortudos aqueles que emigram e calham no local certo, no emprego certo e têm sorte nas pessoas que entram nas suas vidas.
Depois tem aqueles que, como eu e o meu namorado, paramos num sítio com más pessoas. Que pensam que por sermos portugueses somos estúpidos/burros e que nos podem enganar à força toda. É o nosso caso.
E, portanto, como já disse logo no início, carta de demissão entregue e novo trabalho encontrado. Passamos à entrevista e começamos em julho.
Antes de começarmos vamos à Madeira matar saudades e ganhar energia para uma nova etapa.
E antes de irmos à Madeira estamos a tentar encontrar um novo lar, outra vez. Vamos começar tudo de novo, de fresco. Amanhã vamos ver outra casa. Desejem-me sorte.
Desculpem a minha ausência mas isto têm sido uns meses complicados com tudo isto do trabalho. Entregar a carta de demissão e ter que ficar 3 meses até sair como devem imaginar não é tarefa fácil. Se me demiti é que não gosto nem quero estar ali. Mas o que está no contrato escrito está e não podemos fugir a isso.
Com tempinho posso explicar o que se passou no trabalho. É uma má experiência mas eu aprendi com isso e vocês podem também aprender. Se calhar amanhã, com tempo, conto-vos aminha história. Preparem-se que vai ser longa.
Há coisa de 6 meses atrás (mais precisamente 6 meses e 4 dias) eu emigrei. Como muitos enfermeiros emigraram. Como muitos mais Portugueses emigraram. E chorei.
Chorei por deixar a minha família, principalmente. Chorei por deixar a minha ilha, o meu quarto com parede vermelha, os meus livros, a minha caricatura, o meu cantinho. Chorei por não poder exercer a minha profissão no meu país. Chorei porque os meus pais e irmão choraram. Chorei porque ia para um sítio desconhecido. Outra língua, outras pessoas. E chorei muito.
Nessa noite antes da grande ida, dormi com os meus pais. Não tenho vergonha de dizê-lo. A tristeza era muita e o medo também. Não conseguia adormecer, sentia vontade de vomitar devido ao nervosismo. E chorava. Dormir com eles foi a única maneira de me acalmar.
Isto é muito díficil.
Pensem bem: a vida é feita de mudanças, transições e adaptação. Mas não assim tudo de uma vez. A lei da vida (que agora não serve de nada) é crescer, tirar um curso (ou não), arranjar trabalho, uma relação e mudar de casa. De um modo progressivo. Agora não é bem assim.
De um momento para outro, acabaste a licenciatura. E agora? - perguntas.
Agora, como muita gente faz, emigras. Mudas de país, de língua, de casa, de vida. Emigrar não é fácil. Não é fácil por deixarmos a família, sim. E não é fácil lá. Seja no Reino Unido ou outro sítio qualquer. Não é fácil adaptar-se, arranjar um cantinho a que possas tratar de lar doce lar. Viver para além do "casa-trabalho, trabalho-casa". É difícil.
E é ainda mais díficil quando não calhas no sítio certo. Quando sentes que por seres emigrante, porque o teu país vive com dificuldades, eles pensam que podem abusar de ti. Que só pensas em dinheiro e por isso podes esfarrapar-te a trabalhar. Quando pensam que por seres emigrante ou por seres Português és estúpido e podem enganar-te.
Mas, na vida, aprende-se com os nossos próprios erros, com as nossas cabeçadas na parede. E temos sempre que tirar os aspetos positivos naquelas alturas em que a nossa vida não é mesmo um mar de rosas. É daí que vem a nossa força.
Amanhã vou voltar ao Reino Unido. Por esta altura ando a voar pelos céus estrelados. Esperam-me mais uns meses de luta, de trabalho e, espero eu, de mudanças. Mas para além disto, esperam-me momentos a dois com o meu mais-que-tudo, que me tem acompanhado nesta jornada pela vida. Com o nosso gato Leo. E no nosso lar doce lar, pequenino e acolhedor.
Amanhã vou chorar novamente. Porque vou, novamente, deixar a família por alguns meses. Porque agora não vou para o desconhecido. Vou sim para algo que sei bem o que é. E, infelizmente, esta é também uma razão para chorar.
Talvez da próxima vez que voltar a minha ilha e tiver que regressar a terras de sua Majestade seja diferente. A minha mãe diz que só me custa tanto voltar não só porque deixo a família e vou sentir saudades mas também porque não estou a gostar do sítio onde estou a trabalhar e talvez ela tenha razão.
Mas vou. Na esperança de melhorar. E vou lutar por isso. Porque a vida não é feita de desistências. A vida é feita de luta e aprendizagem. Sei que os meus pais, irmão e namorado têm orgulho em mim. Tal como eu tenho neles.
Eu espero um dia contar a minha (a nossa) história aos nossos filhos com orgulho. E que eles sintam tanto orgulho em mim como eu hei-de sentir por eles.
Eu vou, mas volto. Como os meus pais me disseram há 6 meses e 4 dias atrás, eu vou mas não morri. Eu volto. Vou abraçá-los de novo, enchê-los de beijos e viver boas memórias a acrescentar às que já existem. E daí a música no início. É de chorar quando há aqueles que vão e não voltam. Deixam a saudade, a vontade de ter mais tempo com eles e as memórias. E isso dói.
Eu vou, mas volto. (E isto podia dar muito bem o título de um livro. Se é que já não existe.)
Sinto-me cada vez mais realizada de dia para dia com o meu desempenho tanto no trabalho como como dona de casa.
Sei que estou a evoluir no trabalho pois sinto-me cada vez mais à vontade e segura das minhas decisões. Sinto-me mais confortável com a língua, estou a ganhar confiança. Sinto que o staff simpatiza comigo e com o meu método de trabalho. Já não mostram sentir-se "inseguros" ao trabalhar comigo só porque sou a nova enfermeira e tenho apenas 22 anos. Gosto do que estou a fazer, sinto-me inteligente e a evoluir de dia para dia. Ser enfermeira aqui é diferente de ser enfermeira em Portugal. Apesar de estarmos muito bem qualificados, em Portugal os médicos por exemplo não valorizam a nossa palavra. É rara a vez que isso acontece.
Aqui, é muito frequente os médicos pedirem a nossa opinião. E isso exige muito de nós. Exige um grande poder de observação e o que chamamos olho clínico. Sinto que estou a evoluir também nisso e gosto, muito!
Quanto à parte da dona-de-casa, sinto-me bem nesse aspeto pois noto que com o passar do tempo sinto que o local onde estou está a tornar-se no meu lar. E é difícil fazer isso quando estamos habituados ao nosso cantinho, na casa da mãe.
Tenho me esforçado sempre para tornar este simples apartamento no nosso cantinho. Com coisas nossas, ao nosso gosto. Um local confortável que sentimos como a nossa casa e não só como o local para onde vou depois do trabalho e durmo. Quando cheguei cá, isto era um simples apartamento. Desorganizado e nada fazia sentido.
Agora, depois de virar e revirar muitas coisas, comprar almofadas para a sala e outras decorações, começo a senti-lo como o meu lar. Mesmo que não tenha uma cozinha (sim, temos quarto, sala de estar/jantar e WC. Mas a cozinha é no rés-do-chão, uma cozinha comum. O que é indiferente pois at the moment não está mais ninguem a viver cá).
Portanto isto tem sido a minha vida - muito trabalho, descanso suficiente e nada de jantares em família, café com a mãe ou coisas parecidas (não imaginam a "comichão" que me faz quando leio os vossos posts sobre momentos em família!) .. Porque não os tenho por cá mas... não é por isso que não me sinto feliz e bem comigo mesma. As coisas estão a ganhar rumo. Estou cá há 2 meses e 2 dias e ainda me estou a organizar. Estas coisas levam tempo!
I'm the king of the world! Um dos lugares que mais gosto em Blackpool. Porque permite-me estar perto do mar, uma das coisas que tenho imensas saudades na minha terra linda.
Já começou a chuva pelas minhas terras e que saudades tinha dela!
O calor acaba por aborrecer-me um pouco, quando é em demasia. Felizmente já se faz sentir a chegada do Outono!
E não podia deixar de me lembrar que daqui a menos de um mês já não estou cá e isso aperta-me o coração. Sim, eu sei que vou ter trabalho, vou ser muito mais reconhecida do que por cá e vou ganhar muito mais. Mas ter a família longe faz com que tudo isto pareça uma tortura e não uma conquista.
Como têm me vindo a dizer, é uma questão de adaptação e tudo se consegue. E eu só acredito vendo.
O blog vai ser o meu diário, muito mais do que tem vindo a ser. Não se admirem de que este assunto da emigração e as saudades e o choro sejam tema constante cá pelo blog. Acho que vai ser uma das estratégias para lidar com todas estas mudanças.
Se alguém estiver a passar (ou já passou) pelo mesmo que eu, partilhem a vossa vivência se assim o quiserem.